quarta-feira, 16 de novembro de 2011

inocente sono

    Quando jovem, eu amava dormir. Era uma relação especial a minha com a cama, com o sono, com a preguiça, com o ato de deitar e dormir. Lembro-me bem de como dormir me fazia feliz. Cheguei a pensar, na ocasião, que era feliz porque dormia o suficiente, ou um pouco mais, talvez. Hoje vejo a lógica um tanto invertida, mas sem ter certeza de que se trate de felicidade.

    Quando eu era pequeno, criança mesmo, ou melhor, quando, hoje, me lembro da minha infância, tenho uma clara lembrança. Pensava que ser adulto não deveria ser muito bom. Via meus pais trabalhando o dia inteiro, ambos em lugares muitos distantes. Meu pai chegava a sair de casa de madrugada ainda, minha mãe, não, era ela que me levava pra escola. Sou filho único e, pelo que me lembre, era eu uma das poucas alegrias de meus pais. Vejam bem, não que eles fosse pessoas tristes, pesadas ou pesarosas, pelo contrário, deles nunca tive essa impressão. Eram, simplesmente, adultos. Mais tarde, sem grande esforço, descobri que adultos não são felizes como podem ser as crianças. Adultos são assim porque tem responsabilidades, que nada mais são do que cumprir promessas pequenas e cotidianas, pagar contas, manter um casa, um relacionamento só, ter pouco tempo para muitas coisas importantes, que aos poucos deixam de ser. Adultos quase não são, ou não podem ser, crianças.

    Nessa estrada, não acredito que existam bifurcações. Homens serão homens, meninos, meninos. Sempre um habita noutro? Não. Crianças são crianças, apenas. Homens também são crianças, que aos poucos deixaram de ser, mas que, vira e mexe, novamente o são.

    Acordei cedo hoje, como já disse. Meu amor ao sono se foi. Se foi o mundo em que meu sono podia ser o que foi. Hoje acordo cedo no mundo. Pra dar conta dele, preciso estar de olhos abertos, sonados ou não. Mesmo homem, hoje desconfio de mim sempre que esqueço o quanto ainda sou criança, mesmo sabendo bem que criança eu posso, ou não posso, ser.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

esfria o caldo

Quantos mais, eu já nem sei. Sei dos quanto menos, que me deixam quase sem memória... mentira, me deixam só memórias. Sei que sei bem, mas isso não é suficiente, se fosse, tudo seria diferente. Algo me segura, me previne, me cuida, me tolhe. Eu sigo sobrevivendo, dando ao mundo o que ele espera de mim. Quase nunca a recíproca é verdadeira. Temo pelo melhor, desejo o pior, mas não conto nada do meu juízo de valor. Ao redor quase ninguém é diferente, que coisa. Nenhuma novidade, tudo que parece novo é velho, previsto, monótono, como a vida de todos nós. Alguns ainda se surpreendem por não estarem felizes, eu não, eu sempre soube. Quantas verdades que só entendemos pra dizer "é mesmo", mas que não valem nada no mercado de valores. O homem e seu estado bruto, tosco, medroso, cronicamente uma piada de si. Dentro de mim o caldo esfria, e cada vez mais começa a cheirar mal. Sinto falta de uma boa briga, de uma que não se possa sair.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

cardiopatias e afins

Beijou a testa daquela mulher incerta, mas não sentiu nenhum amor. Pelo contrário, sentiu foi saudades de lhe sentir o cheiro, que simplesmente não estava mais lá. Com o toque de sua mão na dela, deu-se a mesma coisa, era como se fosse outra, ou uma versão falsificada dela mesma. Acostumado a suspirar com carinhos, desta vez lhe faltou o ar, e de modo algum foi isso uma besteira. Foi tanto que logo ele se pôs sentado na cama com as mãos apoiadas nos joelhos e cotovelos abertos, como que querendo alargar os pulmões. Ainda assim não bastou, porque, além do mais, agora ela lhe olhava com uma cara estranha, de quem quer saber o que já se sabe, mas que ainda não foi dito. Ele só olhou com o rabo do olho, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar. Os dois, então, tiveram pensamentos terríveis, que os mativeram juntos pelo resto de suas vidas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

a lojinha de exposições

Havia um sujeito que tinha, a muito custo, juntado dinheiro para comprar uma pequena lojinha num lado pobre do centro da cidade. Como grande apreciador das artes plásticas, decidiu que um dia teria um espaço só seu para expor algumas obras de artistas em início de carreira. E assim se deu, mas o espaço que seu salário de funcionário público lhe permitiu alugar era pequeno demais. Decidiu então que isso não seria impedimento para seu sonho se realizar. Passou semanas tentando pensar numa solução, até que finalmente decidiu. Exibiria uma obra por vez, no centro da sala, que era perfeitamente quadrada. Ligou para um amigo seu e pediu emprestada uma de suas esculturas abstratas. Comprou um pedestal de segunda mão e colocou a peça sobre ele, bem no meio da sala. Sentou num canto e ficou olhando fixo para aquilo. Não se sentiu seguro de expor daquele jeito, não sabia se era pela peça ou pelo lugar que ela ocupava, ou mesmo por qualquer outro motivo, simplesmente não achou que estava bom o suficiente. Resolveu experimentar. Saiu e comprou uma peça velha num antiquário próximo. Colocou sobre o pedestal e retomou seu ritual de contemplação, desta vez era o pedestal que não lhe agradava. Saiu novamente para comprar outro tipo, um mais discreto, com perfil mais fino. Montou a coisa no meio da sala e pronto. De novo, não lhe agradou. Achou que pudesse ser efeito da iluminação e em razão disso passou quase um mês experimentando novas lâmpadas e cores da parede. Não era nada daquilo. Resolveu que o problema era a obra, que quando encontrasse a peça certa tudo se encaixaria. Ligou para outro conhecido, colocou sua peça no meio da sala e nada. E a coisa seguiu assim, mês após mês. Enquanto isso, as peças que já haviam sido testadas ficavam largadas nos cantos, já quase não havia espaço para circular. E ele foi cansando. Já abria muito esporadicamente seu espaço para novas experimentações. Ninguém, senão ele, havia pisado lá dentro. Nenhuma obra havia sido exposta. Seu salário ia quase todo para manter aquilo, aquela idéia já começava a perder o sentido. Um dia, ao visitar a loja para recolher as contas que o carteiro jogava por debaixo da porta de ferro, resolveu se sentar, com as costas apoiadas no pedestal que se encontrava já bem empoeirado no centro da sala. Pelas paredes, amontoados de peças de artista conhecidos dele, outro tanto de peças que comprara em brechós e similares. Já quase não se via parede. A porta de vidro que dava pra rua de repente se fechou, empurrada por uma súbita rajada de vento, típica do centro da cidade. O sol que entrava de frente e batia no seu rosto, começou a refletir sua imagem do lado de dentro da porta. Hipnotizado pela imagem de si, contraposta ao muro do outro lado da travessa, com todos aqueles objetos ao seu redor, ele se levantou, tirou a poeira da bunda calça e fez uma faxina geral, tirando o pó de tudo, mas deixando tudo no mesmo lugar. A exposição estava pronta. Finalmente descobrira. O centro da sala não era pra expor, mas pra circular. Enviou os convites para a semana seguinte. Quase ninguém veio, quase ninguém vinha. De tempos em tempos ele se sentava no meio da sala, fechava a porta de vidro e se observava no reflexo que sempre se desenhava do lado de dentro. Seu salário nunca aumentou e a, agora, sala de exposições, nunca mais fechou. Ele também nunca se ressentiu. Assim foi, até o fim de sua vida. Quando ali, naquele mesmo lugar, passou a funcionar uma lojinha de um e noventa e nove.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

medequê rapáaaiz?

Nunca algo importante prescinde de um gesto de coragem. Isso não é uma máxima fajuta. Aprendi isso enquanto escrevia esse texto. Disse pela janela do messenger a um amigo "hoje preciso escrever algo sinistro". Mais cedo na semana, decidi que faria jornalismo, como quem acha que resolve tudo largando a mulher pra casar com a amante. E confesso, isso também eu acabei de descobrir. Tento avançar com esse mesmo texto que você lê agora, mas me ocorrem todos os tipos possíveis de bloqueios, eu procuro as frestas, porque cansei de simplesmente desistir. Inevitavelmente as metáfora começam a pulular na minha cabeça, mas eu não quero metáforas, eu quero outra coisa. Em quantos lugares se pode ler ou ouvir alguém dizer que alguma coisa bem feita consiste em muito mais esforço do que talento? Eu concordo, eu quero ir por aí, me esforçar, como estou fazendo agora. Mais um pouco e eu lembro uma sacada que eu tive noutro dia. Uma coisa enorme, muitíssimo importante pra mim. Ela consistia em algo como a idéia de que nada vale uma idéia, uma fantasia, um sonho, se deles não podem desfrutar os outros. De nada vale minha idéia de escrever, se não posso ser lido, algo assim. Assim, não haveria um fluxo de mim para o outro. Mas um flash, mim-outro, outro-mim. E isso eu já sei bem, é o caso de mão na massa, planejar enquanto se faz. A criação no mais alto degrau, como um deus que detém todas as respostas. Mas eu sei, eu enrolo. É o medo, e eu sei de que, mas não posso dizer, e sem metáforas, fudeu! Beco sem saída. Mas eu volto. Outro caminho. Agora mesmo eu sei que poderia escrever um parágrafo lindo, mas eu não quero esse parágrafo. Me assalta a idéia de que nem sempre se pode fazer o que se quer, mas somente o que se pode. Eu não corroboro, mando à merda e sigo tentando. Quanto mais eu acho que tenho que confiar em mim, mas eu descubro que tenho mesmo é que desconfiar de mim, ser um pouco diferente do que me prevejo. Aí tem coisa. Querer se saber antes de arriscar, isso cheira mal e esse cheiro eu já conheço. Como é difícil se fazer fora de si, fora daquilo que pode ser considerado um plano, um plano de si mesmo. E ainda assim eu contrario esse troço, de se fazer. Há muito tempo eu já não acredito em homens feitos a partir de blueprints bem planejados, mas ao mesmo tempo eu desconfio de todos os outros, acima de todos, de mim. E se toda essa desconfiança não serve pra nada, é isso, ela é uma tralha, e melhor seria se eu fosse um homem planejado. Isso teria que parar de rodar ao meu redor, mas não é tão simples assim. Quem vai me ler? Quem passa no meu texto? Eu quero isso, essa vida fora de mim, nascida em mim, que pode até remeter a mim, mas sem muitas semelhanças. Eu preciso de coragem pra tomar a decisão errada. E depois? Eu não sei. O que é que vem depois da coragem? Quem sabe não conta, quem conta não sabe de nada. Amanhã, quem sabe, eu descubro.

domingo, 10 de julho de 2011

hoje eu acho que fiz uma grande descoberta

Estou sentado frente ao computador, tomando café e ouvindo música, além de fazer o que 115% da população internética faz quando se conecta, abrir o email e o facebook. Não muito diferente de 114% desta mesma população, descubro que na minha caixa de entrada não tem nada que preste, no facebook tampouco. Isso costuma acontecer 113% das vezes em que sento no computador. Mas hoje algo diferente aconteceu. Por se tratar de uma manhã preguiçosa de domingo, que começou depois do meio dia, sentamos eu e minha maruja frente a frente, cada um no seu computador, o que nunca aconteceria num dia de semana, pois nosso horários são muito diferentes. De repente, enquanto eu puxo a barra de rolagem pra baixo, procurando uma coisa fantástica no facebook, ouço vindo do outro lado a seguinte frase: "Como a gente perde tempo no facebook, né?" Acho que nessa hora meu coração deu uma paradinha, como quem diz:"Você ouviu isso?" E eu acenei com a cabeça pra ele. Olhei em direção à varanda que, no apartamento que a gente mora, é enorme. Havia quanto tempo eu não sentava na varanda? Não que a vista fosse uma maravilha, mas não era ruim. Em menos de um segundo fui atingido no peito por uma idéia. Como poderia eu encontrar no facebook alguma coisa que fosse genuinamente de alguma serventia para mim? Não haveria como, já que todo mundo lá tá na mesma. Procurando ali alguma coisa, colocando ali qualquer coisa que seja um passatempo pra gente se divertir encontra não encontra nada. Como a brincadeira do passa-anel, mas sem ninguém estar com o anel. Olho pra varanda de novo e penso em quanto bons encontros tive nela. Penso mais um pouco. Lembro do sonho de ontem. Na verdade não lembro do sonho de ontem, mas sim do sentimento que ele deixou em mim. Quantas vezes já tive sonhos que brotaram no meu peito, mas ainda precoces e frágeis acabaram por ser negligenciados por seu pai, que perdeu tempo demais no facebook. Minha realidade geográfica me dificulta verdadeiramente o contato real com os bons amigos. Uma estufa pra proteger as idéias nascentes da geada que nasce do frio da minha desatenção, da minha panatenção. Em relação ao facebook, de modo geral a essa coisa toda de se deixar levar pela nuvem, talvez vá ser o caso de adotar um "só por hoje". Ou então de tratá-lo sem ingenuidades, como quem negocia algo de valor com um conhecido filho da puta, ou seja, sabendo que o que ele quer de você é exatamente aquilo que você não pode dar. Risadinha no canto da boca e bola pra frente. E a propósito, eu não fui pra varanda. Continuei no computador e escrevi esse texto.

terça-feira, 21 de junho de 2011

dos sonhos, jeitos de fazer café e barulhos de tiro

Hoje minha noite não foi calma, não dormi nada bem. Ouvi barulhos de tiro de madrugada, não muito tarde. Tiros diferentes daqueles que eu estava acostumado a ouvir no Rio. Não era AK-47 nem AR-15, também não eram submetralhadoras. Eram rajadas curtas de cadências longas. Dois tipos de arma, mas com um som muito parecido. Pensei que pudesse se tratar de algum exercício militar, na verdade queria que se fosse isso. Há uma remota chance de não terem sido tiros. Noite adentro sonhei com alguma resolução de vida que dizia da minha rotina, algo bom, mas não lembro. Hoje, fazendo o café que tomo agora, lembrei que prefiro passar o café com a água assim que a chaleira chia, antes de ferver, e despejar a água no pó sem catucar o que fica colado nas paredes do filtro. Tudo diferente do jeito que meu pai faz. Ele usa água fervida e cavuca o pó. Eu gosto do café dele, ele gosta do meu. Disso se pode tirar muita coisa. Amanhã é véspera de feriado de quatro dias. Essa semana inteira vem sendo de bonança, o que há muito eu não vivia. Cheguei até a imaginar que nunca mais viveria. Os deveres cumpridos e a ausência da sensação de desejos não cumpridos nos leva a um lugar calmo, como nas férias de infância. Mais uma vez, a arte de segurar as pontas me recompensa. Essa faca de dois gumes que é desejar. As lições sobre o tema nunca se esgotam. Entre a delicadeza e a brutalidade, cada vez mais eu venho tombando em direção a primeira, nem tanto por opção. Na vida nunca se vai pra onde se quer. A não ser que saibamos querer com muita sabedoria.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

pela brecha da janela

Quantas decisões fulminantes, quantos planos claros e objetivos, que dificuldade enorme é essa que não nos deixa cumpri-los. Eu sei o que é. Na verdade eu sei exatamente o que é. É culpa dessa mania de querer sempre mais, de querer sempre outra coisa, dessa infidelidade que insistimos em praticar contra nós mesmos, contra nossos desejos de prevaricação e vadiagem. É acharmos que com um pouco mais de dinheiro viveremos melhor, apesar de já sabermos, à essa altura, que isso não é nem um pouco verídico. Hoje já sabemos bem de onde viemos, mas nem por isso fazemos qualquer idéia para onde vamos, às vezes achamos que sabemos onde estamos, mas à vera, não fazemos a menor idéia. Minhas fantasias de uma vida descorrida ficam cada vez mais longe, mas ontem eu senti algo diferente. Eu vi uma brecha, uma brecha bem pequeneninha. E pelo que eu vi do outro lado, ainda há esperança, mas que não vai ser como nos meus sonhos. Vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser real. Vou ser eu ao invés de uma projeção de mim. E você vai estar lá. Vamos estar diferentes em quase tudo, mas continuaremos nos amando. Depois de ontem esse passou a ser meu novo sonho. Que bom, porque agora ele pode acabar acontecendo, agora que eu e você os vimos pela fresta daquela janelinha. Agora nos cabe o mais difícil quanto o assunto é concretizar um sonho grande. Cuidar bem do tempo e torcer para que o tempo cuide bem de nós. Quantos porvires eu não sei dizer, mas mesmo no mar mexido é possível se enxergar um caminho, um caminho que não está lá antes de alguém ter ao menos lhe lançado um olhar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

eu preciso do que eu mais tenho

Era de se imaginar, a expectativa mais uma vez me lembrou que eu não estou ficando mais corajoso ou sereno do que antes, pra não dizer mais jovem. Nessa noite em que dormi só, pois minha maruja foi pro Rio fazer um pequeno procedimento cirúrgico, acordava a cada vinte minutos, achando que já era hora de acordar, porque nesse dia eu também tenho um compromisso importante, dar entrada no passaporte para nossa viagem daqui a alguns meses. Some-se a isso a prova de moto de sábado de manhã, para um homem que a cada ano que passa se torna mais suscetível às guinadas da vida, tum! Me enxugando com vigor depois do banho, para espantar o frio, travo minhas costas! Na mesma hora começo a me xingar, não acreditei que aquilo estava acontecendo, mas sabia, não tinha jeito, já tinha sido. Eu, puto, me visto com dificuldade e toco o barco. Espero que o resto do dia seja de boas novas. E mais, ou eu engrosso um pouco essa casca ou então é melhor assumir logo minha fragilidade emocional para assuntos da maruja. Se eu precisasse mais dessa mulher... seria melhor que fosse seu filho. Força, pequena! A gente chega lá!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

um dia de não ser ninguém

Hoje eu acordei sendo ninguém, talvez porque ontem eu tenha sido demais eu. Ou não. Talvez porque eu tenha tomada algumas, que somadas ao frio e ao título do Vasco, me deram uma espécie de ressaca moral. Daqui a pouco tenho umas aulas de moto, depois de amanhã eu tenho prova de motoescola, eu acho que não vai dar pra passar, mas não me importo muito, o que talvez me ajude a passar. Hoje eu tô é sendo ninguém, sem saco nenhum pra explicar o que é isso, até porque eu mesmo não sei bem. A vida segue se arrastando, ninguém mais sabe ouvir as boas novas, por mais que elas ainda estejam por aí, até mais do que vinham estando recentemente. Talvez eu esteja precisando criar uma tabela no excel, pra poder contabilizar os pontos positivos das coisas, as pessoas andam muito tristes, muito perdidas, muito sozinhas. Eu queria compartilhar o inenarrável, mas tem sido difícil, é muito onqotô e chororô. Os devirescriança parece que todos já cresceram e nenhum outro nasceu. Mas como na noite retrasada, quando o tempo mudou bruscamente, primeiro com o ar quente que parou na cidade, depois com a chuva, depois com o ar quente de novo, depois com outra chuva, pra só depois voltar o frio puto que estava antes, eu to sentindo, to sentindo os ares de mudança, pesados e com cheiro de chuva. Não tô só esperando não, confesso. Estou torcendo. Acho que meu último grande aprendizado na vida foi esse, o de aprender a sentir os cheiros no ar, os cheiros das coisas que só se pode adivinhar, e eu as venho adivinhando com algum sucesso. Acho que vou levar a quentinha da feijoada de ontem pra comer quando chegar no trabalho, depois da aula de moto, até porque aula de moto com feijoada na barriga parece um péssima idéia. Tem tanta gente no facebook, que até parece que tem tanta gente assim no mundo. No mundo de verdade todo mundo anda muito sozinho. Mas eu to sentindo um cheiro no ar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

não se entra no mesmo Rio duas vezes

A matéria fotográfica sobre a cidade do Rio, de uma perspectiva não saudosa, não babaca, não natureba, afirma uma cidade humana, um tecido urbano singular engendrado no seio de uma paisagem natural excepcional. Sem antagonismos vazios nem apologias a um em detrimento do outro, apenas composições ricas e complexas, fruto de um trabalho que tem um resultado libertador para aqueles que já se encontravam, como eu, sem saber bem como pensar ou enxergar a cidade do Rio de Janeiro para além dos discursos midiáticos contemporâneos. As fotografias da artista plástica Cláudia Jaguaribe, publicadas na 56ª edição da revista Piauí, não precisam de explicação, mas o texto que acompanha a matéria é primoroso e prepara o terreno para a apreciação das geniais imagens. Vai o link: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-56/portfolio/rio-emergente.

A propósito, foi logo após uma digestão sofrida de minha atual situação existencial que me deparei com essas fotos, o que desconcerta pra valer um ateu como eu. Conversávamos eu e minha companheira de barco sobre os efeitos de nossa mudança para esta cidade que nada tem de semelhança com a nossa de origem. O quanto eu tentei me prender ao que aqui seria melhor do que lá, muitas vezes de maneira enfática, tentando, talvez, convencer a mim mesmo. Fato foi que, após o escrutínio de ontem, não sobrou pedra sobre pedra. Decidimos ir embora, mais pra frente, quando houver um ganha pão lá, no Rio de Janeiro, apesar das próprias mazelas cariocas, que a bem dizer, não param de se multiplicar. Entre um e outro, eu prefiro o hospício à zombieland. Soldas e continências não são suficientes para fazer uma cidade de verdade.

terça-feira, 7 de junho de 2011

pra começar, sem pé nem cabeça

Eu preparo um café, já são dez e blau, mas ainda assim eu preparo um café. Tem feito muito frio, café não esquenta, mas dá a sensação de que esquenta, pelo menos a boca ele esquenta. Muita preguiça de fazer um pão. Na verdade, depois de sentar no computador, tudo dá preguiça, até mijar. Essa é uma manhã morta, eu só trabalho à tarde. Copio um filme que aluguei ontem mas não vi. Tomo um gole do café e me sinto mais animado, café vicia, de um jeito muito específico. Noutro dia eu tava pensando, tudo vicia, tudo que é bom vicia e nem precisa ser tão bom assim. Eu escrevo essas coisas pra poder escrever, porque escrever me faz bem, de muitos jeitos, mas não vicia, isso é que é foda, só vicia o que é bom e faz mal. Eu bebo, eu fumo e ocasionalmente eu me execito. Já teve um tempo em que eu gostava bastante de me exercitar, correr, me fazia bem aquilo, a idéia daquilo, o efeito daquilo, mas nem tanto o ato em si daquilo. Vejam bem, o café, eu amo o ato, a cerveja também, mas o que aquilo me promete, a idéia daquilo, o quanto aquilo é aprovável, não. É foda. Se eu usar a caneca do café pra esquentar minha mão, o café esfria rápido, e isso é uma coisa da vida. Alguma coisa vai acabar esfriando, eventualmente, nós mesmos, por inteiro. Meu trabalho não me diz muita coisa, mas às vezes passa. Verdade é que meu amor foi comprar cigarros e nunca mais voltou, e esse amor não é alguém, é minha capacidade de amar alguma coisa. E se um homem pode perder alguma coisa significativa, essa coisa é isso. Esse maldito capitalismo que tanta gente acha que é só um termo que define algo simples, não, não é isso. Capitalismo é a gente não conseguir manter as coisas que a gente ama, e essas coisas são sempre coisas que não se pode comprar e que no fim das contas são substituídas por coisas que podemos comprar, ou que não podemos mas queremos. Pense nas últimas vezes em que você se sentiu realmente feliz, quantas delas não envolveram pessoas e situações que muito pouco ou quase nada dependiam de objetos de consumo. Não fazer nada é fundamental para se fazer qualquer coisa bem. Acordar tarde, dormir tarde. Ser um vagabundo que não seja um trouxa. Chegaram ao ponto de inventar um personagem, o "Net", cliente da operadora de tv a cabo de mesmo nome. Net, como nerd. E eu quase lá. Mas não consigo. Os filmes e jogos de videogame de zumbi, nada tem de modismo, eu acho, mas sim retratam o triste fato de estarmos nos zumbificando. O café esfriou e eu não vou tomar desse jeito, trinta segundos de microondas, pelo menos. Vou e volto, continuo. Caetano me faz escrever diferente, muito diferente do que eu escrevo com Thom Yorke. Eu lembro do aniversário que eu tive nos trinta. Perfeito, muitos amigos, nenhuma necessidade de pensar o que quer que seja. Eu já fui uma pessoa querida, talvez ainda seja, mas menos, bem menos do que antes, porque hoje, muito diferente do que antes, eu fico sem saber o que dizer, o que fazer, o que viver, e ninguém gosta disso, de pessoas zumbi. Eu bem que tento tomar providências, mas a coisa é muito sofisticada, muito potente. Meus amigos meio que vão entrando nessa também, quase ninguém escapa. O cinismo pode ajudar, principalmente para que as carapuças não nos caiam tão bem. Como o último foco de resitência. As amizades que conseguem rir de tudo, isso sim seria o ideal. Como sou filho de uma geração muito frouxa, aprendi, depois de muita bordoada, que não viveremos jamais sem as instituições, por isso precisamos instituir meios de preservar nossa fauna afetiva, nossos bichos carpinteiros que escasseiam mas nunca se extinguem, eu quero de volta a alegria debochada que é muito mais séria do que uma gravata num púlpito. São dez e cinquenta e nove, ainda tenho um tempo. Me sinto um pouco menos longe de mim, foi pra isso que eu fiz esse lugar de escrever, é pra deixar aparecer o que habita em mim e que não pode morrer. Macarrão com molho de camarão e abobrinhas, esse será meu almoço, trazido da casa de minha mãe, sobra do almoço de domingo. Gente faz falta, como faz.