quarta-feira, 16 de novembro de 2011

inocente sono

    Quando jovem, eu amava dormir. Era uma relação especial a minha com a cama, com o sono, com a preguiça, com o ato de deitar e dormir. Lembro-me bem de como dormir me fazia feliz. Cheguei a pensar, na ocasião, que era feliz porque dormia o suficiente, ou um pouco mais, talvez. Hoje vejo a lógica um tanto invertida, mas sem ter certeza de que se trate de felicidade.

    Quando eu era pequeno, criança mesmo, ou melhor, quando, hoje, me lembro da minha infância, tenho uma clara lembrança. Pensava que ser adulto não deveria ser muito bom. Via meus pais trabalhando o dia inteiro, ambos em lugares muitos distantes. Meu pai chegava a sair de casa de madrugada ainda, minha mãe, não, era ela que me levava pra escola. Sou filho único e, pelo que me lembre, era eu uma das poucas alegrias de meus pais. Vejam bem, não que eles fosse pessoas tristes, pesadas ou pesarosas, pelo contrário, deles nunca tive essa impressão. Eram, simplesmente, adultos. Mais tarde, sem grande esforço, descobri que adultos não são felizes como podem ser as crianças. Adultos são assim porque tem responsabilidades, que nada mais são do que cumprir promessas pequenas e cotidianas, pagar contas, manter um casa, um relacionamento só, ter pouco tempo para muitas coisas importantes, que aos poucos deixam de ser. Adultos quase não são, ou não podem ser, crianças.

    Nessa estrada, não acredito que existam bifurcações. Homens serão homens, meninos, meninos. Sempre um habita noutro? Não. Crianças são crianças, apenas. Homens também são crianças, que aos poucos deixaram de ser, mas que, vira e mexe, novamente o são.

    Acordei cedo hoje, como já disse. Meu amor ao sono se foi. Se foi o mundo em que meu sono podia ser o que foi. Hoje acordo cedo no mundo. Pra dar conta dele, preciso estar de olhos abertos, sonados ou não. Mesmo homem, hoje desconfio de mim sempre que esqueço o quanto ainda sou criança, mesmo sabendo bem que criança eu posso, ou não posso, ser.

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