terça-feira, 7 de junho de 2011

pra começar, sem pé nem cabeça

Eu preparo um café, já são dez e blau, mas ainda assim eu preparo um café. Tem feito muito frio, café não esquenta, mas dá a sensação de que esquenta, pelo menos a boca ele esquenta. Muita preguiça de fazer um pão. Na verdade, depois de sentar no computador, tudo dá preguiça, até mijar. Essa é uma manhã morta, eu só trabalho à tarde. Copio um filme que aluguei ontem mas não vi. Tomo um gole do café e me sinto mais animado, café vicia, de um jeito muito específico. Noutro dia eu tava pensando, tudo vicia, tudo que é bom vicia e nem precisa ser tão bom assim. Eu escrevo essas coisas pra poder escrever, porque escrever me faz bem, de muitos jeitos, mas não vicia, isso é que é foda, só vicia o que é bom e faz mal. Eu bebo, eu fumo e ocasionalmente eu me execito. Já teve um tempo em que eu gostava bastante de me exercitar, correr, me fazia bem aquilo, a idéia daquilo, o efeito daquilo, mas nem tanto o ato em si daquilo. Vejam bem, o café, eu amo o ato, a cerveja também, mas o que aquilo me promete, a idéia daquilo, o quanto aquilo é aprovável, não. É foda. Se eu usar a caneca do café pra esquentar minha mão, o café esfria rápido, e isso é uma coisa da vida. Alguma coisa vai acabar esfriando, eventualmente, nós mesmos, por inteiro. Meu trabalho não me diz muita coisa, mas às vezes passa. Verdade é que meu amor foi comprar cigarros e nunca mais voltou, e esse amor não é alguém, é minha capacidade de amar alguma coisa. E se um homem pode perder alguma coisa significativa, essa coisa é isso. Esse maldito capitalismo que tanta gente acha que é só um termo que define algo simples, não, não é isso. Capitalismo é a gente não conseguir manter as coisas que a gente ama, e essas coisas são sempre coisas que não se pode comprar e que no fim das contas são substituídas por coisas que podemos comprar, ou que não podemos mas queremos. Pense nas últimas vezes em que você se sentiu realmente feliz, quantas delas não envolveram pessoas e situações que muito pouco ou quase nada dependiam de objetos de consumo. Não fazer nada é fundamental para se fazer qualquer coisa bem. Acordar tarde, dormir tarde. Ser um vagabundo que não seja um trouxa. Chegaram ao ponto de inventar um personagem, o "Net", cliente da operadora de tv a cabo de mesmo nome. Net, como nerd. E eu quase lá. Mas não consigo. Os filmes e jogos de videogame de zumbi, nada tem de modismo, eu acho, mas sim retratam o triste fato de estarmos nos zumbificando. O café esfriou e eu não vou tomar desse jeito, trinta segundos de microondas, pelo menos. Vou e volto, continuo. Caetano me faz escrever diferente, muito diferente do que eu escrevo com Thom Yorke. Eu lembro do aniversário que eu tive nos trinta. Perfeito, muitos amigos, nenhuma necessidade de pensar o que quer que seja. Eu já fui uma pessoa querida, talvez ainda seja, mas menos, bem menos do que antes, porque hoje, muito diferente do que antes, eu fico sem saber o que dizer, o que fazer, o que viver, e ninguém gosta disso, de pessoas zumbi. Eu bem que tento tomar providências, mas a coisa é muito sofisticada, muito potente. Meus amigos meio que vão entrando nessa também, quase ninguém escapa. O cinismo pode ajudar, principalmente para que as carapuças não nos caiam tão bem. Como o último foco de resitência. As amizades que conseguem rir de tudo, isso sim seria o ideal. Como sou filho de uma geração muito frouxa, aprendi, depois de muita bordoada, que não viveremos jamais sem as instituições, por isso precisamos instituir meios de preservar nossa fauna afetiva, nossos bichos carpinteiros que escasseiam mas nunca se extinguem, eu quero de volta a alegria debochada que é muito mais séria do que uma gravata num púlpito. São dez e cinquenta e nove, ainda tenho um tempo. Me sinto um pouco menos longe de mim, foi pra isso que eu fiz esse lugar de escrever, é pra deixar aparecer o que habita em mim e que não pode morrer. Macarrão com molho de camarão e abobrinhas, esse será meu almoço, trazido da casa de minha mãe, sobra do almoço de domingo. Gente faz falta, como faz.

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