Memoh! - o antihomem
terça-feira, 13 de março de 2012
dos cães e sua variabilidade não genética
Os cachorros que acabaram de ser atropelados e que não morreram, e que ainda conseguem andar, procuram sempre se aproximar de um humano, principalmente quando estão nas últimas. É comum que, principalmente em cidades pequenas, os cachorros sem dono fiquem a vagar, quase sempre beirando as ruas principais ou as vias mais movimentadas. Quem sabe do que eu estou falando, também deve saber que não é nem um pouco difícil distinguir entre aqueles cães que sempre viveram na rua e aqueles que por descuido de seus donos acabaram por se soltar e agora estão perdidos. Para os que não sabem, descrevo-os agora. O primeiro, mais safo, anda sempre a farejar, mas ao mesmo tempo matém suas orelhas em pé e sempre levanta a cabeça quando vai atravessar a rua. Desconfia de tudo e de todos e raramente se deslumbra com qualquer oferta que se lhe façam. Desconhece a alegria, típica dos cães domésticos, que só são os bonachões que são porque desde cedo aprenderam que a docilidade lhes garantiria tudo o que quisessem, menos a liberdade. Os cães perdidos, por sua vez, são mais raros de ser encontrados e para isso existem dois simples motivos, ou morrem atropelados ou são recapturados. Os cães mais bem tratados podem até ser pegos por outros humanos, que sensibilizados pelo contraste entre beleza do bicho e a escrotidão da rua, acabam por torná-los seus. Finalmente, retornando ao nosso mistério, por que será que os cachorros solitários de rua buscam a companhia de humanos quando se encontram moribundos em razão de um atropelamento? Depois de muito pensar no assunto, cheguei a uma conclusão provisória que me satisfez um bocado. Quereriam os cães livres, na sua derradeira hora, conhecer um pouco do sentimento do qual gozam seus similares domésticos da mesma maneira que estes últimos fogem para morrer longe de seus donos, experimentando então um pouco da liberdade que durante toda a vida lhes foi cerceada? Independente qualquer coisa, ao menos essa especulação parece nos mostrar o quanto podem ser, ao mesmo tempo, tão iguais e tão diferentes as criaturas que se apresentam sob o desígnio canis familiaris.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
quase velho, quase novo
No alto dos meus trinta e dois anos, não sei bem se me sinto velho ou se ainda me sinto novo. A vida já não é tão promissora, os sonhos vão se esmirrando pouco a pouco, e o lugar da constatação desse fato é a mesa do bar. É gritante o contraste do que se pode observar hoje e o que há poucos anos atrás se poderia. Os assuntos mais variados, infância, relacionamenos pregressos e futuros, sexo, futebol, política, teorias gerais, notícias de jornal do dia, especulações acerca da vida alheia, o mundo como ele é e como deveria ser, eram infinitos os tópicos que frequentavam as mesas de pvc com um suor dos copos de cerveja lhes escorrendo pelas pernas. Hoje, sobrou muito pouco. Se antes tínhamos a clara impressão de que compartilhávamos sonhos e alegrias, atualmente, e é com pesar que lhes digo tal coisa, nos encontramos para testemunhar, uns perante os outros, que ainda estamos vivos e que planos temos para que continuemos assim. Não à toa um dos principais assuntos trata dos demprimentes concursos públicos, os quais, para nós, enfadonhos psicólogos, são mandatórios para que se tenha uma vida minimamente digna. Depois disso, são só migalhas. A gente vê pouca tevê, lê poucos livros, faz pouquíssima coisa interessante. Nossas vidas aos poucos vão se tornando um difícil ofício de equilibrista, na corda bamba, mesmo sem querer. Os relacionamentos também já não dão tanto assunto, já que dois grupos começam a se definir muito bem: os há muito tempo casados e os há muito tempo solteiros. Ambos já tendo criado uma rotina de uso para seu estado civil que não produz sequer uma historinha que valha a pena ser contada.
Eu, que gosto bastante de falar efusivamente em monólogos que podem ser breves ou, para o terror de meus ouvintes, se estender até muito além do que qualquer alma em são consciência possa aguentar, começo a soar um pouco louco. E assim a coisa toda vai, de pouco em pouco, furtivamente se instaurando em nossas almas não mais juvenis. A alegria gratuita começa a nos parecer postiça, o pesar, familiar. Sozinhos, em casa ou na rua, pensamos que podemos fazer melhor, talvez possamos, mas ainda não. Ainda nos falta a sabedoria do velho, que sabe como é que faz com tudo aquilo que já foi tudo, mas não é mais.
Eu, que gosto bastante de falar efusivamente em monólogos que podem ser breves ou, para o terror de meus ouvintes, se estender até muito além do que qualquer alma em são consciência possa aguentar, começo a soar um pouco louco. E assim a coisa toda vai, de pouco em pouco, furtivamente se instaurando em nossas almas não mais juvenis. A alegria gratuita começa a nos parecer postiça, o pesar, familiar. Sozinhos, em casa ou na rua, pensamos que podemos fazer melhor, talvez possamos, mas ainda não. Ainda nos falta a sabedoria do velho, que sabe como é que faz com tudo aquilo que já foi tudo, mas não é mais.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
enfim, eu não gosto de enfins. enfim...
E daí o retrato, ou melhor, a fotografia. Ela me exime de todas as explicações que eu penso que deveria dar, ou melhor, de novo, deveria descrever. Se isso pode lhes parecer uma falta de caráter, do tipo literário, que seja, até que me sinto mais à vontade com isso, já que não preciso me cobrar ou me permitir ser cobrado por ostentar tal aspiração. Quem sabe um dia não dirão que foi coisa nova, ou apenas coisa bonita que eu fiz. Espero pelo menos poder continuar sabendo o que me agrada de fato produzir, seja logo depois de pronto, seja algum tempo passado. O blog, eu queria deixá-lo assim, parado, como que fechado, concluído. Mas confesso que enquanto não encontrar outro meio de organizar as coisas novas, não sei se conseguirei cumprir isso. Não sei se quero online, pelo menos não como era o blog. Gostaria de poder ter a disciplina de organizar o material todo antes de publicá-lo, em papel. Ter mais de uma coisa seria bastante bom, um online e um sempre correndo por fora, pra ser papelado mais à frente. Me faltam os meios subjetivos e as alianças para que me encontre novamente na estrada da produção. Não sei se conseguirei tão cedo retoma-la, parece que não. Mas confesso, é raro o dia em que isso não me aflige, o que piora quando me deparo diretamente com algo que me remeta ao tema, como ontem. O sono da tarde quase sempre me lembra daquilo que ainda não morreu em mim. Toda vez eu sinto que ou me alio a isso ou terei para sempre um inimigo incansável e visceral. Espero que a coragem e a sabedoria possam um dia se entender. Hoje tenho a impressão de que uma fala grego e a outra alemão.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
inocente sono
Quando jovem, eu amava dormir. Era uma relação especial a minha com a cama, com o sono, com a preguiça, com o ato de deitar e dormir. Lembro-me bem de como dormir me fazia feliz. Cheguei a pensar, na ocasião, que era feliz porque dormia o suficiente, ou um pouco mais, talvez. Hoje vejo a lógica um tanto invertida, mas sem ter certeza de que se trate de felicidade.
Quando eu era pequeno, criança mesmo, ou melhor, quando, hoje, me lembro da minha infância, tenho uma clara lembrança. Pensava que ser adulto não deveria ser muito bom. Via meus pais trabalhando o dia inteiro, ambos em lugares muitos distantes. Meu pai chegava a sair de casa de madrugada ainda, minha mãe, não, era ela que me levava pra escola. Sou filho único e, pelo que me lembre, era eu uma das poucas alegrias de meus pais. Vejam bem, não que eles fosse pessoas tristes, pesadas ou pesarosas, pelo contrário, deles nunca tive essa impressão. Eram, simplesmente, adultos. Mais tarde, sem grande esforço, descobri que adultos não são felizes como podem ser as crianças. Adultos são assim porque tem responsabilidades, que nada mais são do que cumprir promessas pequenas e cotidianas, pagar contas, manter um casa, um relacionamento só, ter pouco tempo para muitas coisas importantes, que aos poucos deixam de ser. Adultos quase não são, ou não podem ser, crianças.
Nessa estrada, não acredito que existam bifurcações. Homens serão homens, meninos, meninos. Sempre um habita noutro? Não. Crianças são crianças, apenas. Homens também são crianças, que aos poucos deixaram de ser, mas que, vira e mexe, novamente o são.
Acordei cedo hoje, como já disse. Meu amor ao sono se foi. Se foi o mundo em que meu sono podia ser o que foi. Hoje acordo cedo no mundo. Pra dar conta dele, preciso estar de olhos abertos, sonados ou não. Mesmo homem, hoje desconfio de mim sempre que esqueço o quanto ainda sou criança, mesmo sabendo bem que criança eu posso, ou não posso, ser.
Quando eu era pequeno, criança mesmo, ou melhor, quando, hoje, me lembro da minha infância, tenho uma clara lembrança. Pensava que ser adulto não deveria ser muito bom. Via meus pais trabalhando o dia inteiro, ambos em lugares muitos distantes. Meu pai chegava a sair de casa de madrugada ainda, minha mãe, não, era ela que me levava pra escola. Sou filho único e, pelo que me lembre, era eu uma das poucas alegrias de meus pais. Vejam bem, não que eles fosse pessoas tristes, pesadas ou pesarosas, pelo contrário, deles nunca tive essa impressão. Eram, simplesmente, adultos. Mais tarde, sem grande esforço, descobri que adultos não são felizes como podem ser as crianças. Adultos são assim porque tem responsabilidades, que nada mais são do que cumprir promessas pequenas e cotidianas, pagar contas, manter um casa, um relacionamento só, ter pouco tempo para muitas coisas importantes, que aos poucos deixam de ser. Adultos quase não são, ou não podem ser, crianças.
Nessa estrada, não acredito que existam bifurcações. Homens serão homens, meninos, meninos. Sempre um habita noutro? Não. Crianças são crianças, apenas. Homens também são crianças, que aos poucos deixaram de ser, mas que, vira e mexe, novamente o são.
Acordei cedo hoje, como já disse. Meu amor ao sono se foi. Se foi o mundo em que meu sono podia ser o que foi. Hoje acordo cedo no mundo. Pra dar conta dele, preciso estar de olhos abertos, sonados ou não. Mesmo homem, hoje desconfio de mim sempre que esqueço o quanto ainda sou criança, mesmo sabendo bem que criança eu posso, ou não posso, ser.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
esfria o caldo
Quantos mais, eu já nem sei. Sei dos quanto menos, que me deixam quase sem memória... mentira, me deixam só memórias. Sei que sei bem, mas isso não é suficiente, se fosse, tudo seria diferente. Algo me segura, me previne, me cuida, me tolhe. Eu sigo sobrevivendo, dando ao mundo o que ele espera de mim. Quase nunca a recíproca é verdadeira. Temo pelo melhor, desejo o pior, mas não conto nada do meu juízo de valor. Ao redor quase ninguém é diferente, que coisa. Nenhuma novidade, tudo que parece novo é velho, previsto, monótono, como a vida de todos nós. Alguns ainda se surpreendem por não estarem felizes, eu não, eu sempre soube. Quantas verdades que só entendemos pra dizer "é mesmo", mas que não valem nada no mercado de valores. O homem e seu estado bruto, tosco, medroso, cronicamente uma piada de si. Dentro de mim o caldo esfria, e cada vez mais começa a cheirar mal. Sinto falta de uma boa briga, de uma que não se possa sair.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
cardiopatias e afins
Beijou a testa daquela mulher incerta, mas não sentiu nenhum amor. Pelo contrário, sentiu foi saudades de lhe sentir o cheiro, que simplesmente não estava mais lá. Com o toque de sua mão na dela, deu-se a mesma coisa, era como se fosse outra, ou uma versão falsificada dela mesma. Acostumado a suspirar com carinhos, desta vez lhe faltou o ar, e de modo algum foi isso uma besteira. Foi tanto que logo ele se pôs sentado na cama com as mãos apoiadas nos joelhos e cotovelos abertos, como que querendo alargar os pulmões. Ainda assim não bastou, porque, além do mais, agora ela lhe olhava com uma cara estranha, de quem quer saber o que já se sabe, mas que ainda não foi dito. Ele só olhou com o rabo do olho, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar. Os dois, então, tiveram pensamentos terríveis, que os mativeram juntos pelo resto de suas vidas.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
a lojinha de exposições
Havia um sujeito que tinha, a muito custo, juntado dinheiro para comprar uma pequena lojinha num lado pobre do centro da cidade. Como grande apreciador das artes plásticas, decidiu que um dia teria um espaço só seu para expor algumas obras de artistas em início de carreira. E assim se deu, mas o espaço que seu salário de funcionário público lhe permitiu alugar era pequeno demais. Decidiu então que isso não seria impedimento para seu sonho se realizar. Passou semanas tentando pensar numa solução, até que finalmente decidiu. Exibiria uma obra por vez, no centro da sala, que era perfeitamente quadrada. Ligou para um amigo seu e pediu emprestada uma de suas esculturas abstratas. Comprou um pedestal de segunda mão e colocou a peça sobre ele, bem no meio da sala. Sentou num canto e ficou olhando fixo para aquilo. Não se sentiu seguro de expor daquele jeito, não sabia se era pela peça ou pelo lugar que ela ocupava, ou mesmo por qualquer outro motivo, simplesmente não achou que estava bom o suficiente. Resolveu experimentar. Saiu e comprou uma peça velha num antiquário próximo. Colocou sobre o pedestal e retomou seu ritual de contemplação, desta vez era o pedestal que não lhe agradava. Saiu novamente para comprar outro tipo, um mais discreto, com perfil mais fino. Montou a coisa no meio da sala e pronto. De novo, não lhe agradou. Achou que pudesse ser efeito da iluminação e em razão disso passou quase um mês experimentando novas lâmpadas e cores da parede. Não era nada daquilo. Resolveu que o problema era a obra, que quando encontrasse a peça certa tudo se encaixaria. Ligou para outro conhecido, colocou sua peça no meio da sala e nada. E a coisa seguiu assim, mês após mês. Enquanto isso, as peças que já haviam sido testadas ficavam largadas nos cantos, já quase não havia espaço para circular. E ele foi cansando. Já abria muito esporadicamente seu espaço para novas experimentações. Ninguém, senão ele, havia pisado lá dentro. Nenhuma obra havia sido exposta. Seu salário ia quase todo para manter aquilo, aquela idéia já começava a perder o sentido. Um dia, ao visitar a loja para recolher as contas que o carteiro jogava por debaixo da porta de ferro, resolveu se sentar, com as costas apoiadas no pedestal que se encontrava já bem empoeirado no centro da sala. Pelas paredes, amontoados de peças de artista conhecidos dele, outro tanto de peças que comprara em brechós e similares. Já quase não se via parede. A porta de vidro que dava pra rua de repente se fechou, empurrada por uma súbita rajada de vento, típica do centro da cidade. O sol que entrava de frente e batia no seu rosto, começou a refletir sua imagem do lado de dentro da porta. Hipnotizado pela imagem de si, contraposta ao muro do outro lado da travessa, com todos aqueles objetos ao seu redor, ele se levantou, tirou a poeira da bunda calça e fez uma faxina geral, tirando o pó de tudo, mas deixando tudo no mesmo lugar. A exposição estava pronta. Finalmente descobrira. O centro da sala não era pra expor, mas pra circular. Enviou os convites para a semana seguinte. Quase ninguém veio, quase ninguém vinha. De tempos em tempos ele se sentava no meio da sala, fechava a porta de vidro e se observava no reflexo que sempre se desenhava do lado de dentro. Seu salário nunca aumentou e a, agora, sala de exposições, nunca mais fechou. Ele também nunca se ressentiu. Assim foi, até o fim de sua vida. Quando ali, naquele mesmo lugar, passou a funcionar uma lojinha de um e noventa e nove.
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