terça-feira, 13 de março de 2012
dos cães e sua variabilidade não genética
Os cachorros que acabaram de ser atropelados e que não morreram, e que ainda conseguem andar, procuram sempre se aproximar de um humano, principalmente quando estão nas últimas. É comum que, principalmente em cidades pequenas, os cachorros sem dono fiquem a vagar, quase sempre beirando as ruas principais ou as vias mais movimentadas. Quem sabe do que eu estou falando, também deve saber que não é nem um pouco difícil distinguir entre aqueles cães que sempre viveram na rua e aqueles que por descuido de seus donos acabaram por se soltar e agora estão perdidos. Para os que não sabem, descrevo-os agora. O primeiro, mais safo, anda sempre a farejar, mas ao mesmo tempo matém suas orelhas em pé e sempre levanta a cabeça quando vai atravessar a rua. Desconfia de tudo e de todos e raramente se deslumbra com qualquer oferta que se lhe façam. Desconhece a alegria, típica dos cães domésticos, que só são os bonachões que são porque desde cedo aprenderam que a docilidade lhes garantiria tudo o que quisessem, menos a liberdade. Os cães perdidos, por sua vez, são mais raros de ser encontrados e para isso existem dois simples motivos, ou morrem atropelados ou são recapturados. Os cães mais bem tratados podem até ser pegos por outros humanos, que sensibilizados pelo contraste entre beleza do bicho e a escrotidão da rua, acabam por torná-los seus. Finalmente, retornando ao nosso mistério, por que será que os cachorros solitários de rua buscam a companhia de humanos quando se encontram moribundos em razão de um atropelamento? Depois de muito pensar no assunto, cheguei a uma conclusão provisória que me satisfez um bocado. Quereriam os cães livres, na sua derradeira hora, conhecer um pouco do sentimento do qual gozam seus similares domésticos da mesma maneira que estes últimos fogem para morrer longe de seus donos, experimentando então um pouco da liberdade que durante toda a vida lhes foi cerceada? Independente qualquer coisa, ao menos essa especulação parece nos mostrar o quanto podem ser, ao mesmo tempo, tão iguais e tão diferentes as criaturas que se apresentam sob o desígnio canis familiaris.
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