No alto dos meus trinta e dois anos, não sei bem se me sinto velho ou se ainda me sinto novo. A vida já não é tão promissora, os sonhos vão se esmirrando pouco a pouco, e o lugar da constatação desse fato é a mesa do bar. É gritante o contraste do que se pode observar hoje e o que há poucos anos atrás se poderia. Os assuntos mais variados, infância, relacionamenos pregressos e futuros, sexo, futebol, política, teorias gerais, notícias de jornal do dia, especulações acerca da vida alheia, o mundo como ele é e como deveria ser, eram infinitos os tópicos que frequentavam as mesas de pvc com um suor dos copos de cerveja lhes escorrendo pelas pernas. Hoje, sobrou muito pouco. Se antes tínhamos a clara impressão de que compartilhávamos sonhos e alegrias, atualmente, e é com pesar que lhes digo tal coisa, nos encontramos para testemunhar, uns perante os outros, que ainda estamos vivos e que planos temos para que continuemos assim. Não à toa um dos principais assuntos trata dos demprimentes concursos públicos, os quais, para nós, enfadonhos psicólogos, são mandatórios para que se tenha uma vida minimamente digna. Depois disso, são só migalhas. A gente vê pouca tevê, lê poucos livros, faz pouquíssima coisa interessante. Nossas vidas aos poucos vão se tornando um difícil ofício de equilibrista, na corda bamba, mesmo sem querer. Os relacionamentos também já não dão tanto assunto, já que dois grupos começam a se definir muito bem: os há muito tempo casados e os há muito tempo solteiros. Ambos já tendo criado uma rotina de uso para seu estado civil que não produz sequer uma historinha que valha a pena ser contada.
Eu, que gosto bastante de falar efusivamente em monólogos que podem ser breves ou, para o terror de meus ouvintes, se estender até muito além do que qualquer alma em são consciência possa aguentar, começo a soar um pouco louco. E assim a coisa toda vai, de pouco em pouco, furtivamente se instaurando em nossas almas não mais juvenis. A alegria gratuita começa a nos parecer postiça, o pesar, familiar. Sozinhos, em casa ou na rua, pensamos que podemos fazer melhor, talvez possamos, mas ainda não. Ainda nos falta a sabedoria do velho, que sabe como é que faz com tudo aquilo que já foi tudo, mas não é mais.
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