terça-feira, 21 de junho de 2011
dos sonhos, jeitos de fazer café e barulhos de tiro
Hoje minha noite não foi calma, não dormi nada bem. Ouvi barulhos de tiro de madrugada, não muito tarde. Tiros diferentes daqueles que eu estava acostumado a ouvir no Rio. Não era AK-47 nem AR-15, também não eram submetralhadoras. Eram rajadas curtas de cadências longas. Dois tipos de arma, mas com um som muito parecido. Pensei que pudesse se tratar de algum exercício militar, na verdade queria que se fosse isso. Há uma remota chance de não terem sido tiros. Noite adentro sonhei com alguma resolução de vida que dizia da minha rotina, algo bom, mas não lembro. Hoje, fazendo o café que tomo agora, lembrei que prefiro passar o café com a água assim que a chaleira chia, antes de ferver, e despejar a água no pó sem catucar o que fica colado nas paredes do filtro. Tudo diferente do jeito que meu pai faz. Ele usa água fervida e cavuca o pó. Eu gosto do café dele, ele gosta do meu. Disso se pode tirar muita coisa. Amanhã é véspera de feriado de quatro dias. Essa semana inteira vem sendo de bonança, o que há muito eu não vivia. Cheguei até a imaginar que nunca mais viveria. Os deveres cumpridos e a ausência da sensação de desejos não cumpridos nos leva a um lugar calmo, como nas férias de infância. Mais uma vez, a arte de segurar as pontas me recompensa. Essa faca de dois gumes que é desejar. As lições sobre o tema nunca se esgotam. Entre a delicadeza e a brutalidade, cada vez mais eu venho tombando em direção a primeira, nem tanto por opção. Na vida nunca se vai pra onde se quer. A não ser que saibamos querer com muita sabedoria.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
pela brecha da janela
Quantas decisões fulminantes, quantos planos claros e objetivos, que dificuldade enorme é essa que não nos deixa cumpri-los. Eu sei o que é. Na verdade eu sei exatamente o que é. É culpa dessa mania de querer sempre mais, de querer sempre outra coisa, dessa infidelidade que insistimos em praticar contra nós mesmos, contra nossos desejos de prevaricação e vadiagem. É acharmos que com um pouco mais de dinheiro viveremos melhor, apesar de já sabermos, à essa altura, que isso não é nem um pouco verídico. Hoje já sabemos bem de onde viemos, mas nem por isso fazemos qualquer idéia para onde vamos, às vezes achamos que sabemos onde estamos, mas à vera, não fazemos a menor idéia. Minhas fantasias de uma vida descorrida ficam cada vez mais longe, mas ontem eu senti algo diferente. Eu vi uma brecha, uma brecha bem pequeneninha. E pelo que eu vi do outro lado, ainda há esperança, mas que não vai ser como nos meus sonhos. Vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser real. Vou ser eu ao invés de uma projeção de mim. E você vai estar lá. Vamos estar diferentes em quase tudo, mas continuaremos nos amando. Depois de ontem esse passou a ser meu novo sonho. Que bom, porque agora ele pode acabar acontecendo, agora que eu e você os vimos pela fresta daquela janelinha. Agora nos cabe o mais difícil quanto o assunto é concretizar um sonho grande. Cuidar bem do tempo e torcer para que o tempo cuide bem de nós. Quantos porvires eu não sei dizer, mas mesmo no mar mexido é possível se enxergar um caminho, um caminho que não está lá antes de alguém ter ao menos lhe lançado um olhar.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
eu preciso do que eu mais tenho
Era de se imaginar, a expectativa mais uma vez me lembrou que eu não estou ficando mais corajoso ou sereno do que antes, pra não dizer mais jovem. Nessa noite em que dormi só, pois minha maruja foi pro Rio fazer um pequeno procedimento cirúrgico, acordava a cada vinte minutos, achando que já era hora de acordar, porque nesse dia eu também tenho um compromisso importante, dar entrada no passaporte para nossa viagem daqui a alguns meses. Some-se a isso a prova de moto de sábado de manhã, para um homem que a cada ano que passa se torna mais suscetível às guinadas da vida, tum! Me enxugando com vigor depois do banho, para espantar o frio, travo minhas costas! Na mesma hora começo a me xingar, não acreditei que aquilo estava acontecendo, mas sabia, não tinha jeito, já tinha sido. Eu, puto, me visto com dificuldade e toco o barco. Espero que o resto do dia seja de boas novas. E mais, ou eu engrosso um pouco essa casca ou então é melhor assumir logo minha fragilidade emocional para assuntos da maruja. Se eu precisasse mais dessa mulher... seria melhor que fosse seu filho. Força, pequena! A gente chega lá!
quinta-feira, 9 de junho de 2011
um dia de não ser ninguém
Hoje eu acordei sendo ninguém, talvez porque ontem eu tenha sido demais eu. Ou não. Talvez porque eu tenha tomada algumas, que somadas ao frio e ao título do Vasco, me deram uma espécie de ressaca moral. Daqui a pouco tenho umas aulas de moto, depois de amanhã eu tenho prova de motoescola, eu acho que não vai dar pra passar, mas não me importo muito, o que talvez me ajude a passar. Hoje eu tô é sendo ninguém, sem saco nenhum pra explicar o que é isso, até porque eu mesmo não sei bem. A vida segue se arrastando, ninguém mais sabe ouvir as boas novas, por mais que elas ainda estejam por aí, até mais do que vinham estando recentemente. Talvez eu esteja precisando criar uma tabela no excel, pra poder contabilizar os pontos positivos das coisas, as pessoas andam muito tristes, muito perdidas, muito sozinhas. Eu queria compartilhar o inenarrável, mas tem sido difícil, é muito onqotô e chororô. Os devirescriança parece que todos já cresceram e nenhum outro nasceu. Mas como na noite retrasada, quando o tempo mudou bruscamente, primeiro com o ar quente que parou na cidade, depois com a chuva, depois com o ar quente de novo, depois com outra chuva, pra só depois voltar o frio puto que estava antes, eu to sentindo, to sentindo os ares de mudança, pesados e com cheiro de chuva. Não tô só esperando não, confesso. Estou torcendo. Acho que meu último grande aprendizado na vida foi esse, o de aprender a sentir os cheiros no ar, os cheiros das coisas que só se pode adivinhar, e eu as venho adivinhando com algum sucesso. Acho que vou levar a quentinha da feijoada de ontem pra comer quando chegar no trabalho, depois da aula de moto, até porque aula de moto com feijoada na barriga parece um péssima idéia. Tem tanta gente no facebook, que até parece que tem tanta gente assim no mundo. No mundo de verdade todo mundo anda muito sozinho. Mas eu to sentindo um cheiro no ar.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
não se entra no mesmo Rio duas vezes
A matéria fotográfica sobre a cidade do Rio, de uma perspectiva não saudosa, não babaca, não natureba, afirma uma cidade humana, um tecido urbano singular engendrado no seio de uma paisagem natural excepcional. Sem antagonismos vazios nem apologias a um em detrimento do outro, apenas composições ricas e complexas, fruto de um trabalho que tem um resultado libertador para aqueles que já se encontravam, como eu, sem saber bem como pensar ou enxergar a cidade do Rio de Janeiro para além dos discursos midiáticos contemporâneos. As fotografias da artista plástica Cláudia Jaguaribe, publicadas na 56ª edição da revista Piauí, não precisam de explicação, mas o texto que acompanha a matéria é primoroso e prepara o terreno para a apreciação das geniais imagens. Vai o link: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-56/portfolio/rio-emergente.
A propósito, foi logo após uma digestão sofrida de minha atual situação existencial que me deparei com essas fotos, o que desconcerta pra valer um ateu como eu. Conversávamos eu e minha companheira de barco sobre os efeitos de nossa mudança para esta cidade que nada tem de semelhança com a nossa de origem. O quanto eu tentei me prender ao que aqui seria melhor do que lá, muitas vezes de maneira enfática, tentando, talvez, convencer a mim mesmo. Fato foi que, após o escrutínio de ontem, não sobrou pedra sobre pedra. Decidimos ir embora, mais pra frente, quando houver um ganha pão lá, no Rio de Janeiro, apesar das próprias mazelas cariocas, que a bem dizer, não param de se multiplicar. Entre um e outro, eu prefiro o hospício à zombieland. Soldas e continências não são suficientes para fazer uma cidade de verdade.
A propósito, foi logo após uma digestão sofrida de minha atual situação existencial que me deparei com essas fotos, o que desconcerta pra valer um ateu como eu. Conversávamos eu e minha companheira de barco sobre os efeitos de nossa mudança para esta cidade que nada tem de semelhança com a nossa de origem. O quanto eu tentei me prender ao que aqui seria melhor do que lá, muitas vezes de maneira enfática, tentando, talvez, convencer a mim mesmo. Fato foi que, após o escrutínio de ontem, não sobrou pedra sobre pedra. Decidimos ir embora, mais pra frente, quando houver um ganha pão lá, no Rio de Janeiro, apesar das próprias mazelas cariocas, que a bem dizer, não param de se multiplicar. Entre um e outro, eu prefiro o hospício à zombieland. Soldas e continências não são suficientes para fazer uma cidade de verdade.
terça-feira, 7 de junho de 2011
pra começar, sem pé nem cabeça
Eu preparo um café, já são dez e blau, mas ainda assim eu preparo um café. Tem feito muito frio, café não esquenta, mas dá a sensação de que esquenta, pelo menos a boca ele esquenta. Muita preguiça de fazer um pão. Na verdade, depois de sentar no computador, tudo dá preguiça, até mijar. Essa é uma manhã morta, eu só trabalho à tarde. Copio um filme que aluguei ontem mas não vi. Tomo um gole do café e me sinto mais animado, café vicia, de um jeito muito específico. Noutro dia eu tava pensando, tudo vicia, tudo que é bom vicia e nem precisa ser tão bom assim. Eu escrevo essas coisas pra poder escrever, porque escrever me faz bem, de muitos jeitos, mas não vicia, isso é que é foda, só vicia o que é bom e faz mal. Eu bebo, eu fumo e ocasionalmente eu me execito. Já teve um tempo em que eu gostava bastante de me exercitar, correr, me fazia bem aquilo, a idéia daquilo, o efeito daquilo, mas nem tanto o ato em si daquilo. Vejam bem, o café, eu amo o ato, a cerveja também, mas o que aquilo me promete, a idéia daquilo, o quanto aquilo é aprovável, não. É foda. Se eu usar a caneca do café pra esquentar minha mão, o café esfria rápido, e isso é uma coisa da vida. Alguma coisa vai acabar esfriando, eventualmente, nós mesmos, por inteiro. Meu trabalho não me diz muita coisa, mas às vezes passa. Verdade é que meu amor foi comprar cigarros e nunca mais voltou, e esse amor não é alguém, é minha capacidade de amar alguma coisa. E se um homem pode perder alguma coisa significativa, essa coisa é isso. Esse maldito capitalismo que tanta gente acha que é só um termo que define algo simples, não, não é isso. Capitalismo é a gente não conseguir manter as coisas que a gente ama, e essas coisas são sempre coisas que não se pode comprar e que no fim das contas são substituídas por coisas que podemos comprar, ou que não podemos mas queremos. Pense nas últimas vezes em que você se sentiu realmente feliz, quantas delas não envolveram pessoas e situações que muito pouco ou quase nada dependiam de objetos de consumo. Não fazer nada é fundamental para se fazer qualquer coisa bem. Acordar tarde, dormir tarde. Ser um vagabundo que não seja um trouxa. Chegaram ao ponto de inventar um personagem, o "Net", cliente da operadora de tv a cabo de mesmo nome. Net, como nerd. E eu quase lá. Mas não consigo. Os filmes e jogos de videogame de zumbi, nada tem de modismo, eu acho, mas sim retratam o triste fato de estarmos nos zumbificando. O café esfriou e eu não vou tomar desse jeito, trinta segundos de microondas, pelo menos. Vou e volto, continuo. Caetano me faz escrever diferente, muito diferente do que eu escrevo com Thom Yorke. Eu lembro do aniversário que eu tive nos trinta. Perfeito, muitos amigos, nenhuma necessidade de pensar o que quer que seja. Eu já fui uma pessoa querida, talvez ainda seja, mas menos, bem menos do que antes, porque hoje, muito diferente do que antes, eu fico sem saber o que dizer, o que fazer, o que viver, e ninguém gosta disso, de pessoas zumbi. Eu bem que tento tomar providências, mas a coisa é muito sofisticada, muito potente. Meus amigos meio que vão entrando nessa também, quase ninguém escapa. O cinismo pode ajudar, principalmente para que as carapuças não nos caiam tão bem. Como o último foco de resitência. As amizades que conseguem rir de tudo, isso sim seria o ideal. Como sou filho de uma geração muito frouxa, aprendi, depois de muita bordoada, que não viveremos jamais sem as instituições, por isso precisamos instituir meios de preservar nossa fauna afetiva, nossos bichos carpinteiros que escasseiam mas nunca se extinguem, eu quero de volta a alegria debochada que é muito mais séria do que uma gravata num púlpito. São dez e cinquenta e nove, ainda tenho um tempo. Me sinto um pouco menos longe de mim, foi pra isso que eu fiz esse lugar de escrever, é pra deixar aparecer o que habita em mim e que não pode morrer. Macarrão com molho de camarão e abobrinhas, esse será meu almoço, trazido da casa de minha mãe, sobra do almoço de domingo. Gente faz falta, como faz.
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